Revista Cultural N12 – Poesias

out 10, 2011 1 Comentário por

Único
Katia Mota

As paredes tem ouvidos.
Ouvem segredos inconfessáveis,
Solidões intransponíveis.
A alma a rasgar o peito
Num grito mudo.
Ciente dos defeitos.
Horas vazias.
Vícios lícitos.
Prisões explícitas.
Sem direito da solidão de ser único.
No dinamismo de ser muitos.
Ser mútuo.
Aceito.
No seu conceito.
Ter direito de ter defeitos.
E por ser único;
Ser perfeito.

Além da bruma e da escuridão
João Luís de Almeida Machado

Não tema. Não trema.
Tenha coragem. Tenha fé.
Além da bruma e da escuridão,
Atrás das sombras e do pesar,
Há de valer o seu destemor.

Pedras e paus
atirados em minha direção
me fazem arder, chorar, sofrer
Mas não perco a esperança
e continuo forte, firme
na direção de meus objetivos.

As grades podem me impedir
de sair, estar, compartilhar,
mas o encarceramento
não bloqueia meu pensamento
minhas letras e sentimentos,
a expressão do meu ser

A agressividade e violência
parecem silenciar minha pessoa
impedir os passos a serem dados
o não, o impedimento e a força
querem coagir e calar
mas não podem e não irão…

Capitão do meu destino
Senhor dos pensamentos
não temo as trevas
que me compelem ao medo
e tentam enfraquecer e tirar-me o viver
Por isso mesmo prossigo e tento, novamente…

O Escorpião dos sonhos
Maria do Sameiro Barroso

Ontem. O escorpião do tempo devorava
as mãos de gelo.
Queimava-me a visão do amor.
De súbito, um rosto, uma imagem.
E o silêncio era chama, centro, roda imparável,
máquina incessante:
a poesia do corpo desvela âncoras sem limites.
Nos gumes açulados, um infinito ardor
perfura a morte.
Numa onda perfeita, os amantes despertam
em carnívoras flores que os rios extravasam,
no ópio que os seus poros fabricam.
Ontem.
A mansarda do amor dilata os sonhos.
As nuvens do coração dormem nas ilhas negras
da alvorada
e os corpos dormem, perdem-se do gelo.
Queima-me a visão do amor.
As ondas pernoitam, saciadas
na noite de estrelas periféricas.


Clepsidra
Camila Passatuto

O tic tac do relógio avisa,
Eu viso terminar algum artigo.

Tudo breve para olhos secos.
Gostava de umidade quando criança.

A folha branca pedindo tinta
E o tic tac do relógio avisa.

Estamos escrevendo
Perdemos o tempo dos verdadeiros…

E os segundos
Sempre em primeiro plano para os modernos.

E o ritmo da máquina de dedilhar
Lento, lento… Lento demais.

Alguém chega e cobra o final,
Mas digam a eles: Escrevemos para começar.

E o tic tac da vida lá fora
Afoga, poeta…Afoga.

Prece
Jessiely Soares

I

Que ele não seja
sacro.

Mas apenas fiel,
alimentando os sonhos antigos

E que ainda me reserve um tempo
Que ainda me estenda às mãos
e conte estrelas comigo.

Para que o fim do dia
Ainda pareça
manhã

II

Amanhã.

Que o amor ainda seja capaz
de habitar as frestas da janela
e de entoar mantras ao silêncio

[para as cigarras, para os rios
para as singelezas das nuvens]

até quando a noite alta aparecer.

III

Anoitecendo

Para que eu consiga
ser esperançosa
Mesmo quando a porta
entreaberta
apenas mostrar os raios de escuridão

Que vem de dentro.

E mesmo que aqui fora
a última luz também esteja esmaecendo.

IV

Que este amor me veja.
Além das aparências, das placas de vidro fosco
[que separam a certeza
dos medos]
Além da grama alta dos meus olhos
E da armadura.

Que este amor me veja.

V

E que seja antes da última vez

Reflexo da Lua
Vinicius Santos Souza

A cada banho de chuva,
A cada caminhada na rua
Trocando olhares com a lua

Quantas vezes já olhei para o céu
E me perdi na imensidão do seu véu
E tentei perguntar, gritar, cheguei até a chorar
Esperando a lua vir para me acalmar
E desde então não pude suportar
Ela só podia olhar!
Eu sei que sentia, sobre isso nunca mentia
Mas a sofreguidão não escolhia dia

Suas respostas, promessas, mentiras e verdades
Tudo sempre pura vaidade
Mais ainda acreditava na lealdade
De um sol na escuridão
Limpava céus e mares
Dentre todas as paisagens
Sentia a miragem, daquela que prometia.
Uma falsa eterna felicidade.

Jornada
Fabio Luis

Percebo que a razão
nem sempre segue o caminho da emoção
ás vezes somos pegos de surpresa
e passamos a enxergar a vida com mais clareza
Deixando o coração expressar
toda a sua forma de amar
compartilhando cada momento
revelando todos os seus sentimentos
Para o meu acalento
escrevo aos quatros ventos
palavras que desnudam a minha alma
Sem medo de ouvir a verdade
abro a porta da felicidade
e embarco nesta jornada


Outorgar a imutabilidade é difícil
Ígor Andrade

Só por hoje
o poeta
continua o mesmo.

Os mesmos olhos
para a mesma mulher.
A mesma mulher
sem o mesmo juízo.

Poesia é prejuízo.

Dano que dana a dama.
Dama que dorme na cama.

Enquanto isso
o poeta ama
ama e ama.

O poeta é abismo
sem fundo
esperança
sem mundo.
Homem sem fé
mas fecundo.

Só por hoje
o poeta permite
ser o vagabundo
de sempre
de antes
que faz poesia
pro além
e depois.

número 12, poesia
  • http://Site Brenda Mueller

    Adorei a poesia REFLEXOS DA LUA por VINICIUS SANTOS SOUZA… Ele realmente é muito criativo.
    E todas as poesias são lindas.

show
 
close
rss Follow on Twitter facebook linkedin google+ email Skype