Revista Cultural Novitas Nº 13: Opinião – Klycia Fontenele

dez 19, 2011 Sem Comentários por

Medo de avião

Nunca tive medo de viajar de avião. Os aviões me causam mais estranheza parados no solo do que na altitude. Tirando o momento da aterrissagem quando na maior parte das vezes meus ouvidos parecem estourar, todo o restante do voo me é prazeroso. Até me divirto desfrutando dos serviços de bordo, cuja qualidade é, cada vez mais, inversamente proporcional ao custo de uma passagem aérea fora das promoções-relâmpagos de bilhetes a 50 ou 10 reais. Lembrei-me, agora, da prática ambulante daqueles que vendem nas ruas e atraem consumidores com gritantes promessas de produtos mais baratos. Mas, façamos justiça: as companhias aéreas – mesmo atoladas em dívidas e à beira da falência – mantêm seu requinte e optam por trocar a poluição sonora pela visual, enchendo-nos de GIFs animados.
Ao voar, fico sempre com uma sensação de familiaridade, mesmo viajando por entre nuvens. Você já reparou que quando se está voando – não sei a tripulação que deve lembrar que tudo ali é técnicas e máquinas e que não há nada de natural na tecnologia – a maioria das pessoas age como se voar a 900 km/h, percorrendo longas distâncias em frações de minutos e estando a mais de 10 mil metros de altura, fosse a coisa mais normal para um ser humano fazer. Bem dizer, nascemos para voar! Tanto quanto os pássaros com suas asas e penas, temos coletivas asas metálicas e um belo tanque de combustível. Ocorreu-me agora que essa naturalidade é necessária, do contrário cada avião seria uma bomba prestes a explodir zilhões de impulsos histéricos, causados pelo pânico de se estatelar ou de virar poeira no ar.
Não cheguei a liberar a Dona Histérica que existe em mim, mas em minha última viagem tive como companheiro o tal do medo de voar. Ia de Fortaleza para São Paulo, com meus pais – marinheiros, opa! Passageiros de primeira viagem – e meu irmão. Foi em agosto, há um pouco mais de um mês do pior acidente aéreo da América Latina, ocorrido dia 17 de julho. Infelizmente, esse recorde é brasileiro, então um pouco dele também é meu, já que há 32 anos nasci nas terras canarinhas de Alencar… Pelo menos, tenho o consolo de não fazer parte do seleto grupo lúgubre que desde então carrega consigo marcas bem mais dolorosas: a da saudade e da tristeza que tomam conta da gente quando perdemos alguém de forma irreversível. É, porque mesmo eu que acredito em reencarnação, acho que quando morremos algo se perde pra sempre, pois a vida continua, mas continua de uma maneira diferente. Afinal, quando a morte chega deixa em nós um estranho vazio.
Mas, lá estava eu, na poltrona 19B, numa situação bem parecida com a de um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco que há décadas atrás cantava: “foi por medo de avião que eu segurei pela primeira vez a sua mão…”. A mão era da minha mãe. Naquela decolagem, pela primeira vez, tive a sensação de sinceramente segurar a mão de minha mãe. Ela estava receosa. Com aquele receio que todos sentem em sua primeira vez, seja na cama ou no céu. Tive a sensação de sinceridade por perceber o quão era sentido aquele aperto de mão. Ela que tantas vezes silenciosamente me protegera, agora pedia – também em silêncio – proteção a mim: sua filha mais velha e já experiente com as linhas aéreas. Naquela fração de segundos, eu não saberia dizer qual dos medos que me acometiam era o maior: se o de sofrer um acidente aéreo ou o medo de decepcioná-la. Nem agora consigo definir, pois nas armadilhas de minha memória não consigo reviver plenamente esse momento. Não consigo e nem quero. Já me bastam essas linhas.
Lembro, porém, que naquele momento fiz uma escolha: não decepcioná-la. Então, rapidamente me vesti da naturalidade costumeira daqueles habituados a voar e passei toda a segurança necessária. Deu certo. À medida que o avião ganhava altitude sentia que minha mãe era invadida pela certeza de que nós seres humanos nascemos para voar. Em alguns minutos, ela soltou minha mão e sorriu aliviada, aproveitando a viagem e o serviço de bordo. Mas, um medo ainda me intrigava; o medo de viajar de avião. Depois de tantas decolagens e aterrissagens estávamos eu e um iminente ataque de pânico, sentados na mesma poltrona, com cintos afivelados à espera do barulho de turbinas e dos solavancos característicos no alçar do voo.
Tinha duvidado do poder da criatividade humana e de suas invenções. Por alguns instantes, perdi a certeza de que é natural ganharmos os céus… Essa inquietação me fez ir atrás dos motivos para a minha falta de fé. Em um lampejo, recordei as tantas e tantas reportagens sobre o pior acidente aéreo da América Latina que sistematicamente havia visto há alguns dias. Lembrei-me de como foi terrível todo aquele espetáculo midiático, toda aquela exposição. Mais uma vez, constatei como a mídia – com a desculpa de mostrar a verdade – especula e maltrata quando quer e como nós nos deixamos torturar… E percebi que o estranho vazio que a morte deixara em 17 de julho tinha respingado também em mim.

Klycia é jornalista e escritora.

artigos, número13
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