Revista Cultural Novitas Nº 13: Opinião – Letícia Losekann Coelho
“ Meu primo disse que no futuro a internet será bastante utilizada.
Tu acreditas que ele faz amigos na internet?”
O primeiro computador que tive foi um 486 que eu e meu irmão ganhamos de Natal para digitar trabalhos do colégio. Naquela época não tínhamos internet em casa, pois não existia portabilidade; o que existiam eram uns disquetes em linguagem Qbasic que ganhávamos de brinde para brincar. Depois nosso pai colocou a internet discada e tentávamos navegar na internet da nossa maneira, uma vez que minha mãe e meu pai também não sabiam usar o computador; no colégio a matéria de informática era a linguagem LOGO.
O tempo foi passando e lá por 1998 aprendi, na cadeira de Informática da Educação, a utilizar de verdade a internet, e foi só naquele ano que fiz meu primeiro e-mail – situando um pouco esse perído de forma “histórica”, nesse mesmo ano o primeiro blog foi criado no Brasil. Quase 10 anos após a criação do primeiro blog brasileiro criei o meu; sendo mais exata, isso foi no ano de 2007 e era um blog que falava sobre política. Depois criei mais uma porrada de blogs: poesias, contos, crônicas diversas, etc.
De 2007 para cá, muita coisa mudou e a internet, blogs e computadores são utilizados diariamente por diversas pessoas. Minha mãe tem um blog, meu pai tem Facebook e minha avó usa o Messenger, ou seja, o uso da internet facilitou a vida das pessoas, pois é possível encontrar amigos de infância, trabalhar, fazer novos amigos e diversas atividades que antes não eram comuns a todos. Daí imagina que em pleno final de 2011 eu escute essa frase “Meu primo disse que no futuro a internet será bastante utilizada. Tu acreditas que ele faz amigos na internet?” de um menino de 9 anos, em uma das apresentações que fiz com meu e-book infantil. Para quem está conectado quase que 20 horas por dia, ouvir uma frase dessas faz você olhar diferente para a pessoa. Diferente, no sentido de você se perguntar em que ponto da chamada disparidade de realidade você se perdeu. Daí, você presta um pouco de atenção e em um raio de menos de 10 quilometros de sua casa você pode ver que ali também não tem internet, pois não existe conexão…
Não é só o problema de acesso, os preços ainda são caros e nem todos tem computador ou mesmo lan house disponível, logo, pensei eu, fazer um e-book e apresentar em locais muitas vezes sem internet é um baita tiro no pé. Mudando essa visão, pois se realmente acredito – e eu acredito – na utilização do computador e da internet como ferramenta educacional, não posso tentar só apresentações nas grandes cidades, pelo simples fato de que é triste falar que o Brasil é um País grande e que existem muitas disparidades. Continuar promovendo esse tipo de pensamento obtuso sem fazer absolutamente nada para mudar hoje é impossível. É muito confortável criar um e-book e não sair do escritório para apresentar esse “novo” meio de leitura no Brasil, porque é bem mais fácil ficar aplaudindo artigos americanos e japoneses que comemoram o número de vendas de livros digitais.
Eu comemoraria estatísticas de livros digitais no Brasil, se fossem do Brasil. Aliar tecnologia com educação tem sempre um resultado positivo e não é a toa que a Coréia do Sul – altamente conectada – evoluiu na questão social, educacional e deixou o Brasil comendo poeira no desenvolvimento. É necessário que os professores se modernizem para dar um foco educacional para as novas tecnologias e isso passa até pela orientação de links que os alunos devem ou não ler para fazerem seus trabalhos. Os preços para aquisição de tecnologias novas para escolas e mesmo o consumo próprio precisa diminuir. O valor da banda larga precisa mudar, passando pela competitividade, por exemplo. Em minha região só posso utilizar serviços da Oi e pago caro para ter 2Mb de conexão. Isso é só um exemplo para quem não mora nos grandes centros.
A maior desiguldade que esse nosso mundo moderno trouxe foi a falta de conexão, onde eu tenho internet de 2 MB, na cidade vizinha meu amigo tem de 22MB e na próxima cidade a criança comenta que no futuro a internet será bastante utilizada. Nós somos um País com estrutura para poucos e vê-se hoje a preocupação desenfreada de arrumar as regiões centrais, deixando de lado a “periferia”. Alguns dirão que isso foi sempre assim, mas quando terá um fim?
Você pode me achar fútil por reclamar que alguns tem internet e outros não, levando em conta que outros problemas mais graves precisam ser solucionados, tipo a fome no Brasil, pois ainda tem gente que passa fome em nosso País. Aí vou te perguntar o que você está fazendo para mudar isso tudo? Adianta você colocar a mão no bolso e fazer doações? Você pode sentir-se bem com isso, mas o problema é que não funciona. Precisamos de políticas públicas reais para solucionar as disparidades sociais. Se isso não acontecer, políticos continuarão elegendo-se prometendo saúde, educação e segurança de qualidade. Se o caminho continuar nessa linha, logo irão acoplar em seu discuro, uma conexão de qualidade e daí é a certeza de que não será solucionado.
Quem sabe um dia, Brasil? Quem sabe…
Letícia Losekann Coelho – Pedagoga, Editora e Escritora











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