Revista Cultural Novitas Nº 13: Opinião – Monica Saraiva

dez 19, 2011 3 Comentários por

Pela democratização da palavra

Alguém já se questionou por onde estavam todos os escritos que hoje aparecem postados publicamente em blogs? Onde dormiam as tantas palavras, versos, composições, sentimentos que de repente se tornaram acessíveis por qualquer um de nós? Provavelmente em românticos “diários”, agendas, cadernos ou simplesmente sentidos, sufocados e ignorados por quem os viveu.
Acredito que quem escreve gosta de ser lido. Ainda que haja uma certa timidez, pode-se dizer, inclusive, que o universo dos blogs proporciona em parte a superação desta, pois o desnudar-se através da palavra não requer, necessariamente, uma exposição de quem escreve. Assim, os perfis podem fazer divulgação de seus escritos nas diversas redes sociais resguardados por um possível anonimato que pode até se desfazer aos poucos, a partir da aceitação, da receptividade daquilo que se publica.
Não é raro, no entanto, encontrar blogs alimentados de poemas, crônicas e outros gêneros, mas sem nenhum comentário. Várias possibilidades interpretam isso, sobretudo a não-divulgação, que faz do blog, o “novo caderno” para muitos que escrevem e não têm qualquer intenção, além disso.
Escrever num blog faz de você um escritor? Marcos R. B. Lima, autor do blog “Há poesia em cada dia”, finalista indicado por júri acadêmico ao prêmio TopBlog 2011 acredita que sim. Mesmo ainda não tendo uma obra impressa, afirma que o que lhe torna escritor é o trabalho autoral e não o tipo de veiculação.
A veiculação do que se escreve alimenta a necessidade de produzir e de melhorar a qualidade dos textos. A poesia está em tudo e a sensibilidade a capta. Transformá-la em poema, é um outro passo, um tanto mais largo. E a democratização do espaço da escrita, tem feito nascer uma poesia oxigenada, altiva e autônoma, desobediente à rima e à métrica, dando vazão ao sentimento versado, sem o engessamento de padrões e regras. São versos livres, que não desrespeitam a história da poesia, mas apenas dão a ela um outro braço, uma outra possibilidade. A partir daí, da descoberta do potencial de ver a poesia contida no cotidiano e dela fazer poema, os escritores rede a fora vão qualificando sua escrita, investindo na leitura, procurando rimas mais ricas, vocabulário mais amplo, metáforas convincentes, cadências, estímulos à entonação, à materialização por quem lê. Marcos aponta que o fato de escrever regularmente na internet e receber o retorno de seus leitores, foi melhorando sua escrita com o tempo. Para ele não dá pra fugir do mundo impresso, pois é um fascínio para quem escreve, embora não sejam universos que se excluam – o virtual e o impresso – mas que se complementam.
Os inflexíveis, sisudos e apegados a modelos, contam as sílabas poéticas e desaprovam. Mas o fato é que tem muito mais gente lendo, muito mais gente escrevendo e multiplicando literatura e poesia e isso é inevitavelmente bom. Há que se reconhecer que se trata de um encontro com um meio de entretenimento extremamente edificante, um encontro consigo, revelado pela palavra, pela tradução escrita do que se sente. Para muitos, mais que a aspiração do título de escritor, a poesia é o lugar de escoar sensações, inquietudes, alegrias, seja pela leitura ou pela escrita. Trata-se da verdadeira autoajuda, a que vem de si e não de uma receita pronta escrita por outrem, com uma propriedade generalizante que desconsidera a diversidade e a especificidade.
À revelia do olhar academicista, esses poetas se multiplicam e fazem balançar a rede da literatura. Com blogs autorais ou não, formam também coletivos para dar mais dinamicidade ao fazer poético. Abençoados pela poesia ritmada de poetas incríveis e tão íntimas do cotidiano, como é o caso de Elisa Lucinda e Maria Rezende que fazem escola nesse mundo tão possível, temos a um clique um material sem fim para nos deliciarmos e provar que a fuga pela poesia não é, nem de longe, um ato covarde, mas a arte de preparar pela palavra o ato que pode vir a ser fato, pelas mãos de quem escreve ou pelos olhos de quem lê.
Separamos uma pequena amostra desses espaços cheio de poesia. Uma agradável surpresa e um estímulo para quem não tem medo de se curvar à poesia:
hapoesiaemcadadia.blogspot.com, de Marcos R. B. Lima, que gentilmente compartilhou suas opiniões para serem publicadas aqui;
pontispopuli.blogspot.com de Álisson da Hora, também colunista desta Revista;
historiadaminhaalma.blogspot.com de Talita Prates;
blogdamoni.blogspot.com deMonica Saraiva, autora desta coluna;
tigelacollorida.blogspot.com de Carol Freitas;
docedelira.blogspot.com daRenata de Aragão Lopes;
mudandoeuvou.blogspot.com de Rafaela Figueiredo.

Monica Saraiva – Graduanda em Serviço Social, escritora de Verso e prosa

artigos, número 12
  • http://historiadaminhaalma.blogspot.com Talita Prates

    Muito honrada por estar nesse rol dos que dão à cara para fazer da Poesia uma arte viva e cotidiana!

    Adorei o texto, Moni!

    Beijo,

    Tatá.

  • http://mudandoeuvou.blogspot.com/ Rafaela G. Figueiredo

    Como também dissera Drummond em alguma entrelinha: a poesia é divã!
    Quem escreve sabe disso. Embora se veja por aí isto já tornado um clichê…
    Mas se a poesia/literatura/artes em geral forem, hoje, uma espécie de clichê, tudo bem! Que delas, porém, sejam feitas muitas terapias coletivas, nas quais a Palavra valha mais que qualquer ego.

    Fico imensamente honrada, como a Tá, por fazer parte deste mundo-virtual bonito citado por ti, Moni. E mais: feliz por ter tido o privilégio de conhecer [/fazer parte de] um pouco de cada um deles.

    Beijão!

  • http://hapoesiaemcadadia.blogspot.com/ Marcos R. B. Lima

    Olá, Monica.

    Sempre muito bom debater sobre literatura com quem sabe do assunto. Ótimo texto.

    Abraços.

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